quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Museu Nacional que o fogo destruiu...

Sala onde estava montado esqueleto de dinossauro, fechada para reforma, só podia ser vista pelo lado de fora...










































Na tarde do último domingo, dia 2 de setembro, comentávamos sobre o meteorito Bendegó, colocado na entrada do Museu Nacional, localizado na região da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro... Durante à noite, surgiram as primeiras notícias sobre o incêndio que destruiu o antigo Paço Imperial de São Cristóvão, residência dos imperadores brasileiros até a proclamação da república, em 1889... O museu, especializado em história natural, foi criado por Dom João VI em 1818 – em junho, aconteceu a comemoração do bicentenário, também lembrado pela escola de samba Imperatriz Leopoldinense no Carnaval deste ano – e desde 1892 estava no palácio que foi consumido pelo fogo... No dia seguinte, os noticiários mostravam os esforços de funcionários e pesquisadores para tentar salvar parte dos materiais de estudo existentes no local, uma vez que diversas pesquisas eram desenvolvidas ali, e a busca por peças do acervo em meio às cinzas do incêndio... Uma imagem era repetida a exaustão, a do meteorito que resistiu às chamas, identificado como se fosse o Bendegó – mas não era... Ano passado estivemos três vezes no Museu Nacional... Uma das visitas se deveu ao fato de que a câmera de nosso celular deu problema, o que nos fez comparecer novamente no dia seguinte... Logo, estávamos bem familiarizados com as áreas de exposição e as principais peças do acervo... O relato que faremos a seguir reúne impressões dessas três visitas...  O Bendegó, bem  maior que o meteorito exibido nas reportagens televisivas, ficava bem no meio do saguão de entrada do museu, colocado sobre três pedestais que trazem um relato sobre sua descoberta, em 1784, nas proximidades do riacho Bedengó, na Bahia, e seu translado para o museu, em 1888, e informações sobre seu peso – 5,36 toneladas, antes de ser transportado – e composição – 95,1% de ferro, 3,9% de níquel e 1% de outros elementos... O meteorito que foi apresentado como o Bendegó nas reportagens era menor, e estava colocado sobre um praticável que o mantinha a poucos centímetros do chão... Estava à esquerda da porta principal do saguão, na mostra “Meteoritos, do gênesis ao apocalipse”... Um pouco depois da bilheteria do museu... Onde pagamos R$ 6 pelo ingresso, conforme atesta o cupom fiscal onde constava o número do CNPJ da instituição... A partir das 15 horas, a visitação era gratuita, com entrada permitida até 17 horas, pois o museu fechava as portas às 18 horas... Para chegar a essa exposição e a de fósseis de vegetais – “A Revolução das Plantas”, apresentada por uma versão em desenho de Charles Darwin – o visitante passava pelo retrato do Marechal Rondon... Quem tomasse à direita após entrar depararia com o quadro de um índio, e um painel de informações com cartazes... “UFRJ EM GREVE – CONTRA AS REFORMAS – FORA TEMER”... Desde 1946, o Museu Nacional é administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolvendo um forte trabalho de pesquisa... Logo à frente, estava exposto um crânio de tiranossauro rex, réplica de um exemplar encontrado nos Estados Unidos, adquirida pela Associação Amigos do Museu Nacional, e que recebeu o nome de Stênio, justamente em homenagem ao ator Stênio Garcia... Uma versão em miniatura do próprio ator ficava ao lado da miniatura do dinossauro, para dar uma ideia de seu tamanho... O boneco de Stênio faz cara de susto, protegendo-se com os braços do tiranossauro, como se dissesse... “É uma cilada, Bino!!!”... Estas peças ficavam próximas a entrada de um auditório, onde eram realizadas pesquisas de opinião com os visitantes do museu... Quem respondia as questões nos tablets, recebia um folheto com informações sobre a instituição e uma caneta... Mais adiante, junto às escadas, havia uma exibição sobre a fauna marinha... Seguindo a direita, estava montada a mostra “Minerais da coleção Werner”... Um painel explicava que o acervo organizado pelo geólogo e mineralogista alemão Abraham Gottlob Werner, foi a primeira coleção científica do Museu Nacional, trazida para o Brasil pela família real portuguesa em 1808... Outra exposição, montada pelo Laboratório Central de Conservação e Restauração do museu, reúne instrumentos científicos utilizados no departamento de botânica – o que inclui um relógio, uma calculadora financeira e até mesmo um disquete de computador...  Um corredor leva até os banheiros, o bebedouro e o fraldário, localizados num contêiner fora do prédio... Numa das portas, está um retrato em tamanho natural do pesquisador Edgar Roquette-Pinto, também pioneiro do rádio no Brasil - gravações que fez de povos indígenas perderam-se no incêndio - onde um balão de história em quadrinhos registra um frase de sua autoria... “Jamais se deve agir sem crer... E, uma vez crendo, jamais deixar de agir”... O banheiro era dotado de instalações específicas para portadores de deficiência e fraldário, e o bebedouro fornecia água gelada, muito apropriada para tardes nubladas e mormacentas como aquelas no Rio de Janeiro... 












Em um dia de semana, à tarde, não havia muitos visitantes para contemplar as múmias na mostra sobre o Egito Antigo...











































No meio do saguão de entrada havia o acesso a escadaria para o andar superior do museu, situada em um pátio cercado por paredes cor-de-rosa, bem desgastadas pelo tempo... Nessas paredes havia placas com as efígies dos naturalistas Lund e Von Martius, além da que assinalava a visita oficial do presidente Nilo Peçanha ao museu, em 1910... Um brasão, que provavelmente estava colocado na parede, repousava no chão... Após subir a escada, seguindo pela direita, na área de paleontologia, havia um grande painel sobre a evolução da vida, e os esqueletos de dois animais pré-históricos brasileiros, a preguiça gigante e o tigre dentes-de-sabre, que habitaram o Brasil há 12 mil anos, no período pleistoceno... Algumas janelas abertas permitiam contemplar das sacadas os jardins da Quinta da Boa Vista e a fachada externa do museu, pintada de amarelo e igualmente gasta pelo tempo... Próximo ao painel, estava a exposição “No tempo em que o Brasil era mar:  O mundo há 400 milhões de anos visto a partir dos fósseis das coleções do Museu Nacional”, com fósseis do período devoniano e a reprodução de um trilobita... Num espaço fechado à visitação, estava um esqueleto de dinossauro, que dominava o salão, em meio a vitrines parcialmente desmontadas... Na parte de zoologia, um imenso polvo estava colocado junto ao teto, por cima das esponjas, moluscos, lagostas e caranguejos gigantes... Nas exibições de insetos, entre aranhas e besouros, uma vitrina com borboletas que ia do chão ao teto da sala, de pé-direito alto... Havia ainda a mostra “Plantas do Brasil Central: Resgate histórico e criação do herbário virtual de Auguste Glaziou”... Paisagista, naturalista e herbarista, é dele a concepção atual dos jardins da Quinta da Boa Vista... Ao, lado, a exposição “Amigos d’O Museu 80 Anos”, sobre a Sociedade Amigos do Museu Nacional, fundada em 1937... Seguindo pelo corredor, “Nos passos da humanidade” retrata com crânios e pedras lascadas a evolução da espécie humana... Mais adiante, estavam os vestígios de “Luzia”, representante dos primeiros habitantes do Brasil, também há 12 mil anos atrás... Seu crânio foi utilizado numa reconstituição de seu rosto, cujas etapas eram mostradas em uma vitrine... Este trabalho revelou uma mulher com feições próximas aos negros atuais, o que mudou as teorias sobre o povoamento do continente americano... “Luzia” emprestava seu nome para a seção “Arqueologia Brasileira – Caçadores e Coletores”... Com artefatos de pedra e sambaquis, um tipo de urna funerária... A sala sobre “Culturas Mediterrâneas” tinha peças gregas, etruscas e romanas da coleção Tereza Cristina, reunidas pela esposa de Dom Pedro II... Nas vitrines, vasos, afrescos e amuletos fálicos – ou falos votivos... O elevador antigo combinava com o ambiente da exposição... Em “Egito Antigo”, estavam as múmias adquiridas por Dom Pedro II em sua viagem ao Egito... Uma delas, de um sacerdote, recoberta com um manto feito de pedras preciosas... Outra era de uma mulher, já do período romano... Junto às múmias, estelas de pedra com inscrições em hieróglifos, esculturas, sarcófagos e múmias de jacarés e gatos, com seus respectivos ataúdes... A sala não tinha iluminação, para preservar as peças... O que aumentava a sensação de estranheza que se tinha ao passar pelo local... Quando comparecemos ao museu,  havia poucos visitantes... A maioria das salas permanecia vazia, às vezes apenas com os vigias... A parte de “Arqueologia Pré-Colombiana” estava situada sob um teto ricamente ornamentado – que cedeu no incêndio... Onde estavam objetos de povos andinos, em cerâmica e também em ouro, mantos, múmias naturais e uma lhama empalhada... Para chegar a outra ponta do edifício, era preciso passar por um corredor formado por tapumes, pois como dizia o aviso da Seção de Museologia... “A exposição de arqueologia brasileira está passando por uma reformulação”... Ou seja, aquele andaime azul num canto da salão do salão de paredes beges e enfeites brancos não era parte do acervo...












Reconstituição do rosto de "Luzia", uma das primeiras habitantes do Brasil, era apresentada passo a passo...









































Próximo ao auditório, uma escadaria em caracol, feita em madeira, dá acesso à seção de etnologia indígena... Ao lado da entrada, as esculturas de três índios em gesso e papel-machê, produzidas durante a exposição antropológica de 1882, moldada nos próprios indígenas presentes na ocasião... No meio da sala, máscaras cerimoniais, representando o “Ritual da Moça Nova” dos Tikuna... No paredes, arcos, flechas, machados, e no alto, canoas e remos junto a uma citação do Padre Antônio Vieira... “Uma árvore lhes basta para o necessário da vida:  com as folhas se cobrem, com o fruto se sustentam, com os ramos se armam, com o tronco se abrigam e sobre a casca navegam”...  Nas vitrines, peças em plumária, vide barrete reproduzido por Debret em uma de suas aquarela, palha – cestos e esteiras -  e cerâmica... Como a máscara de macaco, também retratada por Debret, e a urna encontrada numa expedição realizada por Rondon em 1932... Ao lado de um painel sobre “os primeiros e naturais senhores destas terras”, estava um mapa indicando os povos indígenas ainda existentes no Brasil... A sala seguinte é ocupada pela exposição “Os Karajás – Plumária e Etnografia”... Na qual se destacam os cocares de penas, colares, trajes e esculturas, recolhidos ao longo dos anos pelos antropólogos do museu... Logo depois, há o espaço da mostra “Kumbukumbu – África, Memória e Patrimônio”... Ali estava o trono que o rei Adandozan, do Benin, presenteou a Dom João VI... Junto tapeçarias que retratam a escravidão negra e peças que remetem à cultura dos povos africanos, como adornos, machados, armas, instrumentos musicais e esculturas de orixás... Da janela, pode-se avistar o contêiner onde foram instalados os banheiros para os visitantes... O próximo salão é dedicado às “Aves do Museu Nacional”, com exemplares empalhados de várias espécies... Vide arara-azul, seriema, pato do mato, mergulhão caçador, trinta-réis das rocas, pinguim de Magalhães, gavião-real ou harpia, condor, ema, maguari... O elevador, instalado recentemente, tem o uso permitido apenas para funcionários, quatro por vez... A janela traz a vista do jardim interno do museu, com um chafariz no centro e bancos onde funcionários conversavam ou simplesmente descansavam...  A fachada frontal tinha um aspecto mais conservado, porém o desgaste da edificação ficava evidente quando se olhava para as laterais, principalmente à distância... Os gatos que perambulavam em torno do prédio traziam uma certa ideia de abandono... Na última sala, a mostra “Arte com Dinossauros”, apresentando esculturas realistas de dinossauros, feitas  por Maurílio Oliveira, um trabalho que é chamado de “Paleoarte”... Serviu até de laboratório para o elenco da novela “Morde e Assopra”...  Em toda à parte, há a recomendação... “Por favor, não toque”... Acentuando o realismo do tiranossauro rex, sua boca está tinginda de vermelho, imitando respingos de sangue... Ao lado da exposição de etnologia indígena, na Sala dos Embaixadores, havia a exposição “Entre dois mundos – Franceses de Paratitiou e Tupinambá de Rouen”,  com artefatos indígenas do período em que franceses e portugueses chegaram ao Rio de Janeiro, no século XVI... Ao lado de gravuras que retratam a vida cotidiana e os rituais das tribos, estão vasos, urnas funerárias e uma malha de aço, usada pelos soldados europeus... Antes da Sala do Trono, painéis reportam a história do palácio de São Cristóvão e de seus ilustres moradores, desde quando a antiga sesmaria dos jesuítas, confiscada pelo Marquês de Pombal, teve parte de sua extensão adquirida pelo mercador de escravos Elias Antônio Lopes em 1761... Ali, no alto de uma colina, que ainda hoje desafia o folêgo de quem visita a Quinta da Boa Vista, construiu uma casa...  Cedida a Dom João VI em 1808, seria remodelada para se assemelhar ao Palácio da Ajuda, em Portugal – que também é atualmente um museu, igualmente atingido por um incêndio em 1974 - transformada no Palácio Imperial de São Cristóvão... A presença da família real é lembrada na Sala do Trono, que reúne móveis, pinturas e porcelanas, além de um busto de Dom Pedro II e uma bandeira do Império... Essas peças pertencem ao acervo da Casa da Marquesa de Santos, também na região de São Cristóvão... A própria sala se destaca pelos baixos-relevos e pinturas no teto, estas realizadas pelo pintor Mário Bragaldi em 1861... O incêndio pôs tudo abaixo, inclusive os brasões das casas imperiais, a representação de uma assembleia dos deuses do Olimpo e alegorias das quatro virtudes cardeais, a Fortaleza, a Justiça, a Prudência e a Temperança... Apesar dos problemas relativos à conservação e segurança que resultaram no incêndio, muitos deles motivados por uma crônica falta de recursos amplificada com seguidos contingenciamentos de verbas oficiais, a área de exibição, no que pesem algumas partes fechadas, não era o “acervo confuso e pouco didático” da descrição feita por Laurentino Gomes, autor de vários livros sobre o período imperial brasileiro... Certo, ele considera que a vocação do local seria a de um museu histórico, mas, enfim... O que nos lembra, como paulistanos que somos, de questionar... O que será do Museu Paulista, fechado para reformas???...












Valor do acervo sobre a cultura indígena era inestimável, mesmo que os povos originários não sejam valorizados...

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