A eleição para governador em São Paulo é disputada por sete candidatos, mas devido a razões de legislação apenas dois comparecem no Horário Eleitoral, Fernando Haddad, do PT, e Tarcísio de Freitas do REPUBLICANOS, ficando de fora Vera Lúcia, do PSTU, Carlos Machado, do PCB, Izadora Dias, do PCO, Policial Edjane, do AGIR e Vivian Mendes, da UP, com apenas dois concorrentes na telinha, a disputa forçosamente ganha um ar de segundo turno, e não só apenas isso, a impressão é de uma segunda volta que tem um grande favorito, exatamente o atual ocupante do cargo, Tarcísio de Freitas… Então é por isso que o governador começou a propaganda partidária trabalhando forte no protagonismo, surgindo como um “heroi sem capa” (expressão usada no próprio programa) e supervisionando as ações do governo após um deslizamento de terra na região de São Sebastião em fevereiro de 2023, socorrendo vítimas e providenciando novas moradias aos desabrigados, cujos agradecimentos emocionaram o próprio Tarcísio, uma história contada em terceira pessoa por uma apresentadora, uma atriz negra, que elogiava constantemente o “compromisso pra cuidar de cada pessoa, em cada canto do Estado”, ressaltando “a vontade de fazer mais, de ir além, de entregar o que ninguém nunca entregou”, porque “Tarcísio encara os problemas, escuta e entrega resultados que mudam de verdade a vida das pessoas”... Quando o programa do candidato a reeleição aborda um tema mais caro a grande parte do próprio eleitorado, segurança pública, o apresentador é um homem (branco), e as principais realizações são destacadas pelo governador em primeira pessoa, de viva voz, “a Cracolândia acabou”, ou ao abordar o monitoramento por câmeras e reconhecimento facial do programa Muralha Paulista, “se você é criminoso, pode parar de sorrir, você está sendo filmado”, e ele mesmo mostra no celular o aplicativo SP Mulher Segura, testado e reprovado no programa de seu adversário, Fernando Haddad, a propósito, a crítica de que os viciados da região central de São Paulo apenas se espalharam pela cidade fez o anúncio do fim da Cracolândia ser deixado de lado durante a campanha, ações contra o crime organizado tiveram menos destaque, talvez porque as investigações apontaram o envolvimento de figuras do governo, quem sabe, o que explicaria o destaque dado a mudança de comando na PM, não era só apenas o fato de ser a primeira mulher a ocupar o cargo, e propostas de paladar infantil típicas do populismo penal e do punitivismo, como a redução da maioridade penal, ficaram para o candidato que apoia para o Senado, Guilherme Derrite, que foi seu secretário de Segurança, que também evita questionamentos como o da letalidade em operações policiais ou o não uso de câmeras corporais, ou são veiculadas por seu candidato a presidente, Flávio Bozo, como castração química, enquadramento de facções criminosas como organizações narcoterroristas (movimentos sociais também, se possível), aumento de pena para roubo de celular, construção de mega presídios, basicamente nada que leve em conta a capacitação das forças de segurança… A imagem de tocador de obras, mesmo que garantida por vultosas verbas federais, é ressaltada por uma música chiclete, “era projeto, virou obra do Tarcísio, tá pronto!!!”, e em uma peça publicitária onde várias pessoas e o próprio governador colocam na cabeça um capacete azul, um “easter egg” da origem militar do candidato, remetendo a sua atuação na Missão de Paz no Haiti, e muito parecido com um anúncio do governo do Estado sobre prevenção de incêndios florestais, só que as pessoas colocam capacetes vermelhos do Corpo de Bombeiros, que é vinculado à Polícia Militar, na reta final da campanha, não faltou sequer o apelo àquele expediente consagrado pelas candidaturas tucanas de prometer entregas de Metrô, “Até 2030 nós vamos entregar metade do total de quilômetros que outros governos levaram 50 anos para fazer”, alegrando a base aliada de concessionários de serviços públicos, de olho no principal reduto do adversário petista, a cidade de São Paulo e a região metropolitana, na mesma linha das aparições do prefeito paulistano, Ricardo Nunes, ao lado de Tarcísio, igualmente uma retribuição ao apoio do governador na eleição municipal de 2024, parte de um acordo costurado pelo ex-presidente Michel Temer, do MDB, partido de Nunes, e Gilberto Kassab, que atraíram também o PL, enfrentando a relutância do Bozo, que por baixo dos panos, incentivou a candidatura de Pablo Boçal... Em meio à exaltação dos feitos da administração, Tarcísio encontra tempo para um papo reto, cara a cara com o eleitor, uma campanha “old school”, aproveitando uma conversa sobre atendimento a mães atípicas para apresentar ao público sua esposa, Cristiane Freitas, que fazia pessoalmente os curativos em seu marido no período em que foi diagnosticado com câncer, um cuidado que lembra outra primeira-dama, Michelle Bozo, a qual tem aparecido esporadicamente na propaganda eleitoral, embora a exposição de Cristiane tenha o mesmo objetivo, ajudar candidatos apoiados pelo governador a melhorarem sua imagem junto ao eleitorado feminino, inclusive o enteado de Michelle, Flávio Bozo… No dia 7 de setembro, durante as comemorações da independência do Brasil, Tarcísio de Freitas foi mostrado em outra conversa sincera olho no olho, agora com jovens, falando a eles de programas e projetos na área de educação, um tema que costuma ser desprezado pela direita, mas que aqui surge em iniciativas do tipo “a escola dos meus filhos”, sem menções a realizações do governo do tipo “a escola dos filhos dos outros”, escolas cívico militares, privatização da gestão, uso de plataformas digitais no lugar dos livros didáticos, não chegaram a abordar a sempre pouco priorizada remuneração dos professores, entretanto até o acesso à universidade pública teve destaque, mesmo que alguns candidatos que apoiam Tarcísio ataquem uma suposta “doutrinação esquerdista” nas universidades, isso explica porque a fiel apresentadora voltou para mostrar numa lousa a fórmula “Trabalho + Escola Moderna + Investimento na Educação = São Paulo no Segundo Lugar do PISA”… Ainda sobrou tempo para o governador em pessoa propagandear a isenção do IPVA para motos até 180 cilindradas, acreditando que os entregadores serão os novos taxistas, no sentido de formaram uma base fiel a um projeto conservador, como os motoristas de táxi e o malufismo...
A campanha de Fernando Haddad buscou sempre fazer o contraponto da propaganda de Tarcísio de Freitas, no momento em que a apresentadora do programa do candidato do Republicanos dizia, “Enquanto alguns só criticam, outros tem coragem para fazer o que é preciso, essa é a coragem que Tarcísio mostrou no governo do Estado de São Paulo, coragem para levar água e esgoto para quem nunca teve, coragem para enfrentar a Cracolândia, coragem para destravar obras que dormiam havia anos, coragem para tirar famílias de áreas de risco, de palafitas, de encostas que ameaçavam suas vidas, isso é Tarcísio, coragem, trabalho e resultado”, o concorrente do PT afirmava, “Eleito governador, vou revisar as privatizações do Estado e exigir a qualidade nos serviços... Porque água não pode faltar de jeito nenhum... Os trens precisam chegar no horário, com segurança e sem acidentes” – entra o vídeo de internet da explosão de um trem em São Paulo, “O trem pegando fogo aqui... Meu Deus!!!” – “Também vou diminuir o preço de pedágios no caso em que não haja obras que justifiquem o valor... O serviço é público, e vamos garantir que ele funcione muito melhor pra você... De verdade!!!”, a coligação que apoia Haddad se chama Desperta São Paulo, os programas começavam com pessoas tirando uma venda dos olhos e o candidato, ou um jovem cadeirante, fazendo um apelo aos eleitores que deixassem de lado as paixões políticas, ou pelo menos não raciocinassem pela lógica do antipetismo patológico da apresentadora de Tarcísio, “Por que será que no Estado onde mais se trabalha no Brasil, o Partido dos Trabalhadores nunca foi governo, a resposta, porque paulista não é bobo, aqui a gente trabalha de verdade e separa bem quem quer prosperar pelo seu esforço de quem quer se dar bem em cima do trabalho dos outros, diferente de quem já deixou se enganar por essa turma, São Paulo só continua grande como é justamente porque aqui o PT nunca foi governo, simples assim”, tão simples que esquece o financiamento federal de obrar que o governador coloca como vitrines de sua gestão, caso do túnel entre as regiões de Santos e Guarujá, e a defesa da privatização da Sabesp faz ela jogar a responsabilidade pelo aumento de tarifas repetindo o mantra bozista de que “o PT quebrou o Brasil”, e o caso da Sabesp não deixou de ser mencionado por Haddad e nas inserções durante a programação, mostrando promessas não cumpridas de Tarcísio feitas a Rodrigo Bocardi (infelizmente no momento que o jornalista deixou o SBT de forma conturbada), a cobrança também veio na questão feminina, “Tarcísio prometeu prioridade na questão da mulher... Mas congelou verbas em meio a recorde de feminicídio no Estado... Prometeu baixar impostos... Mais o ICMS aumentou... Quem não cumpre com a palavra merece a sua confiança”... Para discutir a questão da violência contra a mulher, o programa apresentou o Seminário Vozes de SP 2026, com depoimentos de vítimas de agressões e a participação das candidatas ao Senado apoiadas pelo PT, Marina Silva e Simone Tebet, além da esposa de Haddad, Ana Estela, pesquisadora na área de saúde pública, o candidato propôs a criação do SP Protege Mulheres, a criação do programa ProSPera para mulheres empreendedoras e sugeriu que a tornozeleira eletrônica seja paga pelo agressor, o que lembra que na área de segurança, uma autêntica sala de comando foi montada para apresentar a principal proposta de Haddad para o setor, a Agência Antifacções, que será comandada por ele próprio, conforme declarado no debate em que Tarcísio se ausentou, em 7 de setembro, o candidato discursou sobre soberania nacional, em meio a pessoas com bonés azuis com os dizeres, “O Brasil é Nosso”, “Sem Anistia para Golpista” e “Brasil Soberano”, a experiência como prefeito de São Paulo, Ministro da Educação e da Fazenda sempre foi destacada nos programas, ligada a projetos como o dos CEUs Paulistas e Institutos SP na educação, Rede Hora Certa Paulista e Farmácia Popular Móvel na educação, Agência Antifacções e Programa Impunidade Zero na Segurança Pública... Os números das pesquisas, que mostravam uma ampla vantagem de Tarcísio de Freitas, levaram Haddad a participar das inserções dos candidatos a deputado estadual e federal, que apontavam os principais problemas do Estado enquanto apresentava soluções e projetos, e conduzindo a um desabafo no encerramento da campanha, “Chegamos ao último programa eleitoral... Eu vou encerrar a minha campanha do mesmo jeito que fiz quando comecei, olhando nos seus olhos, falando sobre o que realmente importa, professor... Durante esse período eu te convidei a deixar as paixões políticas de lado e olhar para São Paulo de verdade, que a máquina de propaganda do meu adversário esconde de você... Domingo, quando estiver diante da urna, faça uma pergunta simples: Em que São Paulo e em que Brasil você quer viver nos próximos quatro anos... O deles, que defende um Estado que entrega serviços e empresas públicas a iniciativa privada... Ou o nosso, que tirou o Brasil do mapa da fome, fez a economia crescer, garantiu a valorização do salário mínimo, aumentos reais para os aposentados e imposto zero para a cesta básica e para quem ganha até 5 mil reais... Na hora de votar, lembre que é o nosso caminho que luta pelo fim da escala 6 X 1... O Brasil é grande demais para caber no quintal de quem quer que seja... E São Paulo é gigante para pertencer a uma dúzia de empresários da Faria Lima que compram barato tudo que o Tarcísio vende... O nosso caminho é o que defende o Bolsa Família, o Prouni, o SUS, a Farmácia Popular, o Minha Casa Minha Vida, o fim das Bets e o combate ao crime organizado e às milícias... Por isso eu faço esse convite, vamos juntos fazer São Paulo melhor para todos nós... Neste domingo, vote Haddad, vote 13”, uma reflexão firmemente posicionada, citando inclusive o envolvimento do governador com Daniel Vorcaro e o Banco Master, diferente do último programa de Tarcísio, fortemente trabalhado no auto-elogio com dupla sertaneja cantando o governador em prosa e verso e tudo, complementando uma “playlist” que tem o inevitável “jingle” chiclete pedindo insistentemente o voto no 10...
A pesquisa mais recente do Datafolha, divulgada em 24 de setembro, coloca Tarcísio de Freitas com 50% das intenções de voto (tinha 49% em 11 de setembro), Fernando Haddad com 30% (29%), Policial Edjane com 2% (3%), Carlos Machado com 2% (3%), Vivian Mendes com 2% (2%), Vera Lúcia com 2% (2%), Izadora Dias com 1% (1%), votos em branco ou em nenhuma candidatura 8% (8%) e indecisos 3% (3%), ou seja, o jeitão de segundo turno da disputa também se deve ao fato de Tarcísio ter chances de liquidar a fatura de primeira, menos por suas realizações na administração estadual e mais pela fidelidade extrema de seu eleitorado, acompanhada de uma sólida adesão partidária, um processo que não começou do zero, apesar de Tarcísio não ser paulista de origem, seu partido, o REPUBLICANOS, além do vínculo com a Igreja Universal do Reino de Deus, fez parte das gestões de Geraldo Alckmin nos tempos de PSDB, ganhando capilaridade em todo o Estado por meio de cargos na área social, e depois da vitória de Tarcísio em 2002, várias lideranças tucanas históricas no interior de São Paulo mudaram-se para partidos da base aliada, em especial para o PSD, por razões do vice Felício Ramuth e principalmente de Gilberto Kassab, mas há gente que mudou para o REPUBLICANOS e também para o PL, caso dos ex-prefeitos Emanuel Cury, coordenador do programa de governo de Flávio Bozo, e Luiz Fernando Machado… Então é por isso que uma parte considerável das peças publicitárias de Tarcísio são destinadas a dar uma forcinha aos candidatos que apoia ao Senado, André do Prado e Guilherme Derrite, e para ajudar seu presidenciável favorito, o candidato do PL, de modo a que pareçam menos ameaçadores para as mulheres, o segmento do eleitorado que puxa a repulsa ao bozismo e seus associados, Prado e Derrite tem duas ex-ministras do Luís Inácio como principais adversárias na corrida para o Senado, e Bozo não pode contar com a adesão da madrasta Michelle em tempo integral, menos pelas polêmicas em torno da definição da candidatura do PL à presidência e mais para preservar a primeira-dama, em caso de derrota na eleição presidencial, até 2030, quando necessariamente será preciso um entendimento com o próprio Tarcísio de Freitas, o próprio discurso de Tarcísio sobre “Trilhas da Prosperidade” busca um diálogo com o eleitorado feminino, especialmente, como o nome sugere, com as mulheres evangélicas, segmento que é contemplado com a presença de Michelle na campanha, o que tem acontecido moderadamente, o apelo aos jovens, com propostas educacionais atípicas à direita, é para contrabalançar a influência de Renan Santos, candidato a presidente pelo MISSÃO, que segue a linha de desprezo a educação formal defendida por Olavo de Carvalho e tem hiperfoco em propostas autoritárias (e primárias, de paladar infantil) de combate ao crime, nesse contexto, Fernando Haddad tem a árdua tarefa de ajudar a diminuir a diferença entre o Luis Inácio e Flávio Bozo, essencial para o esforço de reeleição do presidente, o que poderia ser bem alavancado em caso de segundo turno, algo pouco provável até o momento…
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