
Iniciamos os fortes trabalhos de uma nova edição do Prêmio Melhores do Horário Eleitoral Andrea de Cesaris fazendo uma constatação que não é recente, porém faz mais sentido a cada campanha, uma propaganda eleitoral bem feita não necessariamente reverte em votos suficientes para eleger um candidato ou candidata, pois outras variáveis influenciam no resultado das eleições, a conjuntura, a mobilização, os recursos, e mais recentemente o uso e o alcance das redes sociais, um recurso cuja influência no processo eleitoral é cada vez maior... Enquanto a propaganda eleitoral segue regras estritas, por exemplo, policiais e militares não podem comparecer uniformizados, e há um acompanhamento rigoroso da Justiça Eleitoral, na Internet a situação é de ausência quase total de fiscalização e controle, o que potencializa as métricas de impulsionamento e tem levado muitos candidatos a priorizarem ações nas mídias sociais, claro que na televisão os membros das forças de segurança retiraram as insígnias de seus fardamentos para escapar de punições, e a propósito, nesta eleição basicamente não houve concessão de direitos de resposta em São Paulo, porém o ambiente digital mais permissivo vem atraindo cada vez mais os partidos e candidatos, enquanto alguns concorrentes parecer antenados e simulam na televisão chamadas de vídeo, podcasts e até debates no YouTube (C)... Por falar em regulamentação, o formato e a distribuição do tempo de tela entre os concorrentes, num modelo que combina duas entradas diárias e inserções durante a programação, o qual segundo Antônio Roque Citadini, ex-diretor do Timão teria sido criado em 1974, por uma sugestão da TV Globo, interessada em não prejudicar a audiência de sua novela das oito, "Fogo Sobre Terra", atualmente é um fator limitante da criatividade nas campanhas, as restrições de acesso baseadas no número de parlamentares dificultam o acesso dos pequenos partidos, que normalmente traziam inovações no formato e um conteúdo mais crítico, deixando como única opção ao público as fórmulas de "marketing" repetidas pelas grandes agremiações, caso da campanha para governador em São Paulo, que só tinha dois concorrentes no horário eleitoral que acabavam por passar a impressão que eram faces da mesma moeda... Isso não implica obrigatoriamente em perda de relevância, muitos fatos importantes aconteceram no período do Horário Eleitoral, Carol Lekker saiu do "Fofocalizando", Rodrigo Bocardi deixou o "SBT Cidades", Erika Hilton obteve direito de resposta no "Programa do Ratinho", os anúncios de Bets saíram do ar depois da proibição decretada pelo governo federal, digo... A própria propaganda partidária em São Paulo parecia uma extensão da grade de programação do SBT, tamanha a quantidade de atores, apresentadores, artistas e comentaristas que entraram na disputa eleitoral, e quase ninguém se elegeu, demonstrando o nosso ponto, estar na tela da televisão não é certeza de visualização na tela da urna eletrônica...

MELHOR CAMPANHA PARA PRESIDENTE: Luis Inácio (PT) - A participação do atual presidente e candidato a reeleição na propaganda eleitoral demonstra que uma campanha também é boa quando sabe corrigir a rota, no início, Luis Inácio colocou chapéu e tocou uma versão especialmente dedicada do "Rap do Silva" e a apresentação do ato de lançamento da campanha, apesar de remeter às raízes da luta sindical na região do Grande ABC, criou uma atmosfera de turnê musical de despedida, não de uma disputa eleitoral, a última, mas ainda uma batalha a ser travada... É certo que as realizações vieram nas vinhetas "Antes do Luis Inácio / Depois do Luis Inácio", foram apresentadas propostas na área de segurança pública e foi feita a defesa da soberania nacional, entretanto, como em 2022, quando a covid-19 ficou de fora da pauta, desta vez o enfrentamento esteve ausente ao não ser feita a denúncia da tentativa de goloe de 8 de janeiro de 2023, repetindo a cautela de não se mostrar radicalizado demais ao eleitorado, ou seja, o chapéu é o novo "Luis Inácio Paz e Amor" de 2002, um mote que perdeu força com o antipetismo patológico que tomou conta da sociedade brasileira e permitiu a Flávio Bozo despolitizar o debate e trazer a discussão para a zona de conforto das propostas de eficácia duvidosa para a questão da violência e da percepção enviesada do custo de vida.... Então é por isso que a campanha do Luis Inácio reagiu quando tirou o chapéu e fez o Jones Manoel propondo o debate público com o aumento do bolsa família, a defesa do fim da jornada 6X1, a proibição das Bets, quando ouviu famílias que sofrem com o vício em apostar, a oferta de canetas emagrecedoras pelo SUS e propostas para pequenos empreendedores, e o confronto com o adversário, antes restrito a peças publicitárias em separado mencionando o caso Master, ficou mais direto na série "Falar é Flávio, Fazer é Luis Inácio", tudo isso embalado por uma programação visual que equilibra as cores do PT e da bandeira nacional e até cita jogos famosos de videogame... Obviamente, o resultado do primeiro turno atesta que a mudança não funcionou plenamente, embora alguns analistas acreditem em sua força para impedir uma vantagem maior e até a definição da eleição na primeira rodada em favor do rival, que coisa, não...

PIOR CAMPANHA PARA PRESIDENTE: Augusto Cury (AVANTE) - Os outros candidatos se esforçaram para demonstrar personalidade, Luis Inácio, o experiente líder que fez muito pelo povo e ainda tem mais a oferecer, Flávio Bozo, um homem preocupado em resolver os problemas que afligem as famílias brasileiras, especialmente na economia e na segurança, Ronaldo Caiado, uma pessoa determinada em estabelecer a ordem em sintonia com as novas tecnologias... E Augusto Cury???... Sentou-se numa cadeira e meteu bronca, mandando os brasileiros pararem com a bagunça, em seguida subiu o morro para tirar foto de drone na região da Rocinha e tocou uma versão do "Rap da Comunidade" para ir no embalo do Luis Inácio, cuja campanha deixou o "Rap do Silva" de lado quando mudou a orientação da campanha, obcecado por referências musicais, colocou os candidatos do PL e do PT do mesmo lado de um disco riscado, e ele na plataforma de áudio, acreditando na maturidade do eleitor, transformou ele num personagem de desenho animado ouvindo vozes da consciência, disse ser a cura, fazendo um trocadilho infame com o próprio nome, mas não apresentou nenhum tratamento nem para remédio, digo, então é por isso que sua alta nas pesquisas durou o tempo do impulsionamento das mídias digitais feito por Pablo Marçal quando foi proibido de disputar as eleições, sem contar que após o pleito, Cury deixou claro o que observadores mais atentos já apontavam desde o início da campanha, como terceira via, ele é o acostamento da pista da direita... Ops!!!...

MELHOR CAMPANHA PARA GOVERNADOR: Não Concedido - Numa decisão inédita, a organização do Prêmio Melhores do Horário Eleitoral Andrea de Cesaris decidiu não entregar o prêmio de Melhor Campanha para Governador, e também de Pior Campanha para Governador... A opção foi feita, em primeiro lugar, pelo fato de apenas dois candidatos terem tempo disponível no horário eleitoral, o que levou a uma espécie de antecipação da propaganda eleitoral do segundo turno, que não é avaliada na atribuição do prêmio porque as campanhas acabam ficando muito semelhantes na forma e no conteúdo... Na disputa entre Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas isso fica ainda mais evidente porque ambas as duas candidaturas lançaram mão de apresentadores para defenderem seus pontos de vistas, e do mesmo tipo, um homem jovem branco e uma mulher negra madura... Favorito nas pesquisas, Tarcísio fez uma campanha tentando suprir lacunas dos candidatos que apoiava para a presidência e o Senado, buscando atrair o eleitorado feminino, e fazendo propostas na área de educação que poderiam ter sido apresentadas pelo adversário no MEC, e visavam tirar força da candidatura presidencial de Renan Santos, do Missão, afora alguns lampejos de antipetismo puro simples para manter os mais reacionários por perto sem deixar de cultivar uma imagem moderada.... O petista Haddad fez críticas a privatização da Sabesp e as concessões de linhas da CPTM, e até promoveu um debate com mulheres (o que seu adversário também fez, e ainda conversou com estudantes), porém recorreu ao cenário da sala de comando para apresentar as propostas na área de segurança pública e sugeriu um programa de empreendedorismo feminino, o ProSPera, que o candidato do REPUBLICANOS rebateu reunindo projetos sociais sob a denominação (literalmente) ecumênica de Trilhas da Prosperidade, em resumo, mesmo estando em polos opostos da disputa política, as duas candidaturas se propagandeavam de forma muito similar, não oferecendo a criatividade que é exaltada pela nossa premiação, pois é, não é....

MELHOR CAMPANHA PARA SENADOR: Marina Silva (REDE) – A candidatura soube preencher o tempo de tela reduzido sem se prender a um único formato, a candidata se pronunciava sobre meio ambiente, privatização da Sabesp e soberania nacional, e também participava de grupos de discussão sobre direitos das mulheres e políticas para a juventude, aparecia em atos de campanha com mais frequência que Simone Tebet, a qual concentrou a maioria de suas participações em estúdio, soube resumir suas principais propostas - mais delegacias da mulher, fim da escala 6X1, Marco Legal da Emergência Climática, e revisão do contrato da Sabesp – dosou as menções ao Luis Inácio enquanto seus concorrentes com mais tempo e recursos, André do Prado do PL e Guilherme Derrite do PROGRESSISTAS, se associavam ostensivamente ao governador Tarcísio de Freitas, se diferenciando em aspectos pontuais, André focava no agro e no interior, Guilherne na segurança e na Grande São Paulo, e por fim, Marina trouxe um slogan eficiente, “Faz o 180”, seguramente mais original, por exemplo, que o “SP Sem Medo” de Derrite, que assim como Prado, ganhou a eleição usando o “apito de cachorro”, lembrando aos eleitores de sua existência como candidatos do governador e de Flávio Bozo numa disputa onde o número de indecisos na véspera é imenso...


PIOR CAMPANHA PARA SENADOR: Soninha Francine (CIDADANIA) - A candidata da federação PSDB CIDADANIA e Geraldo Rufino, do PODEMOS, eram os nanicos da disputa ao Senado por São Paulo na propaganda partidária, tendo pouco tempo e recursos à disposição, fizeram a mesma opção de falar diretamente ao eleitor, um estilo clássico de propaganda eleitoral, repetindo durante toda a campanha, os mesmos dois pronunciamentos, a diferença é que Geraldo optou por ambientar seus discursos nas ruas, andando para dar uma ideia de dinamismo, Soninha gravou em um estúdio, sob um fundo colorido que lembrava uma colcha de retalhos, Rufino, sem os apoios nacionais de seus concorrentes, deixou de lado propostas muito específicas e usou a própria história de vida para captar os anseios e a indignação da população, Francine no Horário Eleitoral falava sobre o combate e a prevenção a violência contra a mulher, nas inserções da programação sobre participação popular, a temática da condição feminina sobrepunha sua candidatura às de Marina Silva e Simone Tebet, uma disputa em que estava em nítida desvantagem, e o pior, seus discursos eram quase sempre precedidos pela fala do presidente do partido, Alex Manente, candidato a reeleição para deputado federal, tirando uma parte preciosa de um tempo já escasso, além de diminuir um pouco o mérito próprio da candidata, então é por isso que tanto Soninha quanto Geraldo Rufino tiveram menos votos que Guto Schiavetto, do MISSÂO, um candidato que não aparecia na televisão, e de quebra, Alex Manente ficou como suplente, pois a federação PSDB Cidadania elegeu um único deputado federal, o tucano Paulinho Serra, pois é, não é...
